quinta-feira, maio 24, 2012

UM LEGADO QUE NOS CONFORTA


Ainda fazia o colegial no Prisma, quando nosso professor de redação nos lançou um desafio. Aqueles alunos que conseguissem ter seu texto publicado em um jornal de ampla circulação teriam alguns pontos extras no boletim final.

Já naquela época eu dedicava quase que diariamente alguns trocados à compra dos periódicos da cidade. Dentre os quais, O Norte sempre me suscitava mais simpatia. Foi naturalmente instintiva, então, minha iniciativa de escrever um artigo de opinião e endereçá-lo à edição de alguns dos jornais de Montes Claros. Mais natural ainda foi apelar ao meu, digamos, jornal preferido, cujo editor eu ainda nunca havia tido o prazer de conhecer.

Escrito o texto, telefonei para a edição de O Norte, sem qualquer expectativa de me tornar um jovem metido a articulista da noite para o dia. Do outro lado da linha, um homem simpático e atencioso, cujo nome eu sequer sabia, orientou-me que eu lhe enviasse meu artigo, de modo que ele fosse avaliado pela equipe editorial. Apesar de não garantir qualquer incremento no meu boletim, talvez aquele mero telefonema já me teria valido muito à pena na condição de exemplo: enquanto eu esperava o descaso, ou até mesmo, o escárnio involuntariamente dispensados a um jovem atrevido, na candura dos seus 16 anos, eu havia sido atendido com respeito e atenção. Claro que aquilo também não significava a aprovação do meu texto. “A educação e a compreensão muitas vezes traduzem o sentimento de piedade”, pensei logo comigo...rsrsrsrs...

Acontece que no dia seguinte, após passar em uma banca enquanto voltava da aula, fui tomado pela surpresa!!!... Lá estava o meu texto, que, se não me trai a memória, associava sob perspectiva marxista – mas ainda amadora, confesso – a violência urbana à desigualdade e à exclusão sociais. Foi sim um dia singular aquele para mim, a dita era tamanha que já nem me corria na telha o que a princípio me havia motivado a me envolver naquilo. E mal sabia aquele senhor editor-chefe, com quem eu conversara no dia anterior, que ele havia acabado de recrudescer o gosto pela escrita em mim, um incipiente amante das palavras. Hoje acredito que aquele artigo quiçá nem estivesse à altura do publicável, e que naquele dia prevalecera aposta de um jornalista experiente, que havia conseguido notar o brilho nos meus olhos mesmo por detrás do telefone.

Dali, corri para casa, levando comigo ainda minha ânsia pueril e meu jornal debaixo do braço. Era preciso mostrar aos presentes a minha façanha! Mais tarde, passada a catatonia, telefonaria ao meu eleito-editor-preferido e, mal sabia eu, futuro mestre. Ao telefone, logo percebi sua intenção em relativizar a minha surpresa, como se do lado de cá da linha falasse um Nelson Rodrigues, um Reginauro Silva ou qualquer outro letrado de experiência similar. Além disso, depois de muito me exaltar o texto, sugeriu-me que eu lhe enviasse outros nos próximos dias. Semanas depois já viria a escrever semanalmente para O Norte, até o dia em que deixei a Princesa do Norte.

O que mais me encantava no companheiro Regi era o seu profissionalismo. Apesar dos desafios à imprensa que se verificam em quaisquer cidades de médio a pequeno porte, onde muitas vezes o gosto pela leitura é pouco disseminado e as pressões políticas beiram o inevitável, Reginauro conseguia sempre primar pela responsabilidade, pelo jornalismo sério e pela liberdade de expressão. Desse tempo, levo comigo muito aprendizado e ótimas histórias. Uma delas foi quando troquei sucessivas cartas-abertas com o ex-reitor da UNIMONTES, Paulo César Gonçalves, após ter apontado inúmeras falhas em sua gestão capenga. Nesse episódio, Regi confirmou o seu profissionalismo ao publicá-las sem lançar mão de qualquer censura ou tomar partido no imbróglio, apesar da disparidade entre as forças envolvidas nele. Outra experiência de que me lembro com mais pesar ainda foi quando viajamos juntos a fim de entrevistar José Aguiar, um historiador são-franciscano que havia escrito um livro sobre Lampião. Nele, Aguiar tentava provar, sem muito sucesso, a tese de que o cangaceiro morrera em São Francisco, foragido da polícia coronelista nordestina.

Ontem, enquanto vagava pela Internet, percebi, por acaso, sucessivas atualizações no perfil social de Reginauro. Ao acessá-lo, logo me dei conta de que a infeliz e indesejável já se apresentara àquele mestre. Nessas horas, é natural sermos tomado pela tristeza, pelo pesar. Acontece que no caso de grandes homens como Regi, apesar do inevitável esmorecimento que nos abala, somos tomados também por um certo alento, que, acredito, deriva da história e do legado deixados por eles. À medida que descia os olhos na página, tentando obter mais informações a respeito do que ocorrera com o velho amigo, deparava-me com inúmeras mensagens de conforto, mas, sobretudo, com experiências e relatos sinceros que reiteravam aquilo que tentei transmitir ao longo de todo este texto: a nobre pessoa que foi Reginauro Silva.
 
Yago Cavalcante

2 comentários:

António Jesus Batalha disse...

Olá , passei pela net encontrei o seu blog e o achei muito bom, li algumas coisas folhe-ei algumas postagens, gostei do que li e desde já quero dar-lhe os parabéns, e espero que continue se esforçando para sempre fazer o seu melhor, quando encontro bons blogs sempre fico mais um pouco meu nome é: António Batalha. Como sou um homem de Deus deixo-lhe a minha bênção. E que haja muita felicidade e saude em sua vida e em toda a sua casa.
PS. Se desejar seguir o meu blog,Peregrino E Servo, fique á vontade, eu vou retribuir.

RAYMUNDO JOSÉ M. da Silva disse...

Olá,

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